sexta-feira, 28 de julho de 2017

Serra Da Bocaina - Primeira Parte

Uma formação montanhosa homógrafa a certa serra paulista e fluminense, distante 45km de Curitiba – mas quase totalmente desconhecida até então da maioria dos trilheiros do estado – constitui o ponto mais alto de toda a região fora da Serra Do Mar do Paraná. Seu pico maior, o Morro Da Bocaina, supera quaisquer altitudes do 2º e 3º planaltos, e para efeito de comparação, mesmo a Farinha Seca, Canavieiras e Baitaca, na Serra Do Mar, não igualam seus 1501,5m.


Uma mera observação ao subir as encostas do Capivari Mirim, em dia de forte calor, abriu nossos olhos para esse novo horizonte, de uma bela e acidentada silhueta que era alta demais para ser apenas simples colinas perdidas no relevo de Bocaiuva do Sul ou Tunas do Paraná. E embora já nos desviássemos do eixo habitual do montanhismo, a Bocaina foi motivadora das muitas trilhas (ao norte da capital), que divulgamos neste blog; sendo este talvez o artigo mais importante de todos até aqui.


É composta por 5 morros principais, sendo que apenas o maior deles tem nome conhecido pelos moradores do entorno, ou inscrito em mapa; razão pela qual os referimos de ora em diante como números em ordem decrescente de altitude, para fins de descrição, tal como exposto na imagem a seguir. Por vezes o próprio Morro da Bocaina também será mencionado como “1”, comparativamente. Além deles, existem duas elevações menores – leste e sudoeste – as quais tratamos por “colinas”.

Característica comum a outras serras desta região, sua base noroeste é mais alta e relvada, com maior presença humana, enquanto a vertente sudeste é coberta por floresta; com inclinações que em alguns pontos chegam a ser penhascos.

Antes da finalidade de descrever suas trilhas conforme as conhecemos, cabe mostrar uma foto rara – acompanhada pelo relato – do reconhecimento feito na Bocaina em idos anos 50 durante a "1ª Expedição Científica À Serra De Paranapiacaba E Ao Alto Ribeira" pelo grupo do Coronel João De Mello Moraes e Major Sinval Pinheiro, ambos do Serviço Geográfico do Exército.

Empreenderam esta viagem entre janeiro e abril de 56, tendo seu trabalho republicado pela Revista Brasileira de Geografia, edição abril - junho de 57. Naqueles tempos pioneiros, a região também foi sondada pelo historiador Ermelino De Leão e provavelmente pelo geólogo Reinhard Maack. [Cortesia da biblioteca do IBGE em Curitiba.]

No dia 13 de maio desse ano (2017), depois de muito planejar, iniciamos o intento de conhecer os 3 principais morros deste conjunto, e a partir aqui retratamos como foram as investidas.

Morro 3 – Reconhecimentos E Primeiras Impressões

Entrada
Com altitude semelhante ao Tapapuí, o Morro 3 é a porta de entrada da Bocaina, não somente por ser o 1º visto da estrada, mas por ser o único inteiramente acessível de carro (4 x 4) e estar dentro de uma propriedade bastante hospitaleira. Vindo de Curitiba pela BR-476, passados 1,6 km da pousada Valle do Ribeira (Ribeirão Das Pedras), entra-se à direita na estrada Eulisses Milani, (com trajeto em boas condições), e segue-se por aprox. 7,4 Km até a Fazenda Serra Da Bocaina, constante em carta topográfica. Pouco antes da porteira principal no lado oposto da rua, vive o irmão do caseiro, ante cuja casa nos foi permitido deixar o carro durante nossas 4 idas.

Passagem do 3 para o 2

O que então se vê é um morro comprido, cujo cume está um pouco para trás, e de início aparenta ser mais baixo do que é. Para chegar ao caseiro, entra-se por uma porteirinha a 70m da principal, e passa-se junto aos animais, que são mansos (inclusive os bovinos). O local pertence a um empresário do ramo de transportes, e parece ter uma produção relativamente pequena, em face de sua extensão. Ser o caminho por uma estrada pode dar a impressão de que a serra toda é um lugar fácil e confortável, mas não demoraríamos para conhecê-la de verdade. Por coincidência, quando lá chegamos, o caseiro e sua esposa também iam para o cume, e nos deram carona na caçamba de uma Toyota, resultando numa experiência ruim para alguém do nosso grupo, embora aos demais fosse bem divertido.


A paisagem ao redor começa a causar admiração; encontra-se desde o entorno da Estrada da Ribeira, a Serra De Santana, e os morros perto de Tunas. Para o norte e nordeste estava a nossa grande curiosidade de como seriam os morros 2 e 1, (deste só avistamos a silhueta). O 2 é o que se vê mais bonito dali, com aquele aspecto de "gominhos" por entre os recortes nos pequenos vales onde flui a água das chuvas. Dentre os morros "conhecidos", o menos distante dali é o Capivari Mirim, e assim mesmo são mais de 20km em linha reta. Isso não impede de se ter um panorama privilegiado de toda a Serra do Mar, como se desde a 1ª fila de uma plateia observássemos um palco.

Guaricana

A altitude mostrada no GPS supera um pouco os 1430m. Há um muro baixo que circunda alguns metros do cume, e nele uma cruz, sendo que adiante encontra-se trilhas entre os arbustos. Ao final deles, numa relva baixa é possível avistar detalhes de uma crista do Morro 1; e só então foi que começamos a notar como ele é impressionante. O que do Google Earth se afigura como uma sucessão de relevos não tão recortados é na verdade uma sequência de topinhos íngremes com feições bem mais "hostis" do que imaginamos. Contou-nos depois o irmão do caseiro algo que já era de se supor, a existência de uma trilha entre os cumes do 3 e do 2.


Muito bom visual também se tem num topinho, à direita de quem está retornando do cume. Já à esquerda percebe-se a crista longa e relvada que termina no vale ao início da Colina Sudoeste, quase "pedindo" para também ser percorrida. Existe outra estrada, um pouco paralela à principal, que também desce à fazenda, mas voltamos pela que já conhecíamos. Neste dia ainda nos faltava por visitar uma queda d'água 'deliciosa' que observamos na imagem de satélite, e que veio a ser parte importante desse passeio.



Cachoeira Do Rio Bocaina

Descrito em algumas referências como Arroio Águas Amarelas (tal característica não notamos muito), o Rio Bocaina é afluente do Passa Vinte, e tem nascentes tanto nos morros 2, 3 e 4, quanto nas colinas do outro lado da Eulisses Milani. Vem a completar o laurel daquela fazenda com uma das mais bonitas cachoeiras existentes nos entornos da capital. Ao fim da descida, entramos à esquerda numa estrada interna que logo se aproxima do rio, estando quase paralela. Este corre para o sul, e a 1ª das suas quedas encontra-se a 1km de distância da casa do caseiro, enquanto a 2ª está a aprox. 2km.

Queda maior

Há no caminho uma porteira sem cadeado, e a queda menor fica pouco adiante dela, à direita; desde onde se desce por degraus de pedra. Se a intenção for só o banho, ali já será satisfeita. Mais perto da cachoeira principal, o vale onde o rio passa começa a parecer cada vez mais profundo. A estrada termina numa clareira, e bem na sua borda inicia outra escadaria, que é bem mais longa que a anterior. Ouve-se bem o rumor da água desde o 1º degrau; e ela começa a ser visível na metade da descida. Tem uma boa altura; seu poço não é fundo, e seria impossível não entrarmos nela, caso aquele não fosse um dia frio.


 Tínhamos dado o 1º passo na descoberta da Bocaina, e depois desta vez, alternamos as investidas com outros morros descritos no blog, como foram o Lorena, Betara e Baleia. As idas seguintes e seus resultados são descritos na 2ª parte deste artigo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Cachoeiras Do Rio Itararé

Procurando resolver certa dúvida com a carta topográfica “Pedra Branca Do Araraquara”, tempos atrás me surpreendeu a informação “de mão beijada” sobre a existência de uma cachoeira no Rio Itararé (divisor entre Tijucas Do Sul e Guaratuba), num ponto ao norte da BR-376, cuja margem oposta dá acesso ao Morro dos Perdidos. Não a famosa (ou melhor, as famosas) que ficam dentro da propriedade, e que são o complemento ideal para o passeio no cume, mas outra, nominada “Cachoeira Dos Jesuítas”. Fato raro, pois quando muito encontra-se nesses mapas apenas um tracinho situando a queda, ou às vezes uma desinteressada abreviação “Cach”, como foi o caso da Colle, em Quatro Barras.


Antes de formar a atraente visão que se tem até mesmo da estrada, o rio Itararé desce a floresta da encosta leste do Morro Araçatuba, e passa (provavelmente) por cascatas menores, até atingir as grandes quedas que estão a 'módicos' dez reais de distância do visitante. Menos gente sabe que a beleza não termina ali, e que para baixo da ponte há outra cachoeira, com características distintas, cuja trilha inicia à esquerda da rodovia, a 310m da P.R.F.


O percurso começa atravessando um filete d'água que corre paralelamente à pista, onde a descida é suave, mas o barranquinho oposto é bem íngreme; sendo este o único ponto ruim do primeiro trecho. Pouco antes da chegada, vê-se um outro caminho, para a direita, que leva ao topo da cachoeira; e quem optar por conhecê-lo deve cuidar bastante com o declive. É uma larga queda d'água, que não lembra as da Serra do Mar e litoral, e sim as da região central do estado. O poço é amplo, e de frente para ele as rochas são fendidas de modo que parece proposital, como para o visitante se sentar diante dela com certo conforto.

Viria a saber que mais tarde a Cachoeira 1 foi marcada por alguém no Google como "Cachoeira Alemão-Cwb", e que infelizmente esse nome foi acreditado por muita gente. Provavelmente trata-se de algum usuário que, em vez de se informar com moradores, ou em último caso batizar o lugar com um nome neutro, resolveu dar seu próprio apelido ou nome de usuário dentro do Google; atitude essa que nos parece simplesmente asquerosa.




Abaixo do poço, a água corre por mais uma parte espraiada, aonde se chega pela esquerda, por uma pedra bem no canto, evitando com isso passar entre as do meio. Ao cruzar esse ponto, com maior distância da cachoeira, pode-se tirar ótimas fotos. Também se nota que à jusante, o desnível do rio continua, e muito. Forma-se uma longa cascata, bem aberta, não muito íngreme, mas também bonita. Na margem direita é fácil perceber uma trilha que acompanha o rio e segue paralela a ela, entre um pouco de mata, mas com boa vista desde alguns pontos. A trilha alcança uma parte do rio onde a água perde velocidade; até ali ainda se vê indícios de presença humana. 


Depois já não é inequívoca, e exige em alguns pontos que se ande pelo rio, mas em parte rasa. A recompensa, mais adiante, é um local aberto onde a água se divide e forma cascatas menores, uma das quais mais vertical, ponto esse bem menos frequentado. Chega a ser um local mais agradável que o poço maior. Do barranco direito vem uma certa trilha, que inicia na chácara vizinha, cujo dono foi quem me indicou essas cascatas, às quais eu já pretendia ir porque suspeitava da existência. Desde a BR são aproximadamente 600m de caminhada até elas. Mas qual exatamente é a Cachoeira dos Jesuítas, mostrada no mapa? Só viria a descobrir isso 2 anos depois.



Dentre os muitos ônibus que passam pela localidade, só duas empresas a atendem; uma é a Catarinense, que só serve na ida, porque na volta não para na estrada. Paga-se a passagem inteira até Garuva. A empresa que serve na ida e na volta é a Expresso Maringá, com os ônibus que vão para Guaratuba. Recomenda-se embarcar não na rodoviária de Curitiba, encarecida pela taxa de embarque, e sim na Agência Pinheirão de são José dos Pinhais, onde os primeiros horários de ida são 07:20 e 11:20; e os últimos de volta são 12:15. 14:45, 16:20, 18:45 e 20:15. R$17,80. Há o risco de o ônibus vir lotado e não parar na estrada. Mais que em outros lugares, sem entrar em detalhes, desaconselha-se pegar carona ali. Horários consultados em 06/2017. O telefone da agência é 3384-2647; mas quase nunca atendem.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Caminho Original Da Graciosa - Parte 2



 O Terceiro Trecho Calçado


Antes de andar 100m, vê-se à esquerda um discreto ramal que vai em direção às trilhas do marco 22 (Cachoeiras Gêmeas, Salto Mãe Catira, etc.), e quem anda nele precisa estar alerta para encontrar sua continuação depois de um riachinho. Voltando ao principal, no dia em que conhecemos o 3º trecho, era a 2ª vez que descíamos a Graciosa; quando ao cabo de 500 metros nosso grupo acabou se atrapalhando numa bifurcação por causa do calçamento que desaparecia. Assim tivemos de retornar pelo início, prejudicados novamente pela inexperiência; porém antes ainda paramos num curso d'água a fim de recolher mica, convencidos pela tolice de alguém que jurava estarmos levando ouro para casa. O trajeto certo, que hoje nos parece fácil, encontra outra altura do Rio Cascata e mais algumas bifurcações 'inofensivas', uma das quais parte da direita e hoje sabemos que encontra a estrada.

O trecho faz mais algumas curvas até chegar próximo do recanto Grota Funda, e são poucas as confusões causadas por árvores caídas. O primeiro relato que li menciona que o 3º e o 4º trechos eram um só, mas que foram separados por um desmoronamento, à partir do qual foi criado um desvio entre ambos, forçando o visitante a passar pela estrada novamente. Mas desconfiamos que não seja ali, pois nesse ponto tanto é possível subir direto ao recanto, (por uma trilha íngreme), quanto é possível descer ao rio Grota Funda, por outra ainda mais acidentada, porém viável. E do outro lado sim, chega-se na estrada por uma subida bem mais cômoda, e com indícios de ser a original.

Cascatas Do Rio Grota Funda

Ao cruzar esse rio, a maioria dos trilheiros perde a chance de conhecer a cascata que existe 80m acima, a qual varia muito em volume conforme o período do ano, sendo que mais vale a pena no verão. Andando pelo leito, não há dificuldades senão os galhos caídos. Se só ela o visitante quer conhecer, convém descer do recanto pela trilha do lado oposto do rio. Para conhecer a cascatinha de cima, desce-se ao rio pelo outro lado da estrada. Dela, aliás, já se vê o vulto da queda d'água, a qual é mais espraiada que a de baixo. Da ponte seguinte é visível a profundidade da grota, ainda mais abrupta em comparação à que dá nome ao recanto.


O “Misterioso” Quarto Trecho

Nunca o percorri. Inicia adiante de um ponto perto do qual dizem ser visíveis as Cachoeiras Gêmeas. Tinha lido que dele saía um ramal que desce até o rio Mãe Catira, sabe lá com qual propósito. Aparentemente é um pouco mais curto que o anterior, e seu fim é pouco antes do recanto Bela Vista. Cheguei a andar na saída dele, mas tendo menos destreza que agora, não fui longe e preferi abandona-lo.

O Quinto Trecho

Jacuguaçu
Caramujo Gigante Branco
Depois do Bela Vista, chega-se a uma curva que é a mais acentuada até então. O verdadeiro início deste próximo calçamento seria um pouco para frente, ao lado de um riachinho, cuja ponte criara um desnível ruim. Isso induziu as pessoas a entrarem pelo atalho direto na curva; sendo que em poucos metros a picada já encontra o trajeto original. Paralelamente, com certa distância à direita, corre outro riacho, que nasce numa das fendas do Morro Mãe Catira; e que tem uma curta trilha desde o recanto anterior, para manutenção do cano de água que o abastece. O presente trecho é mais aberto e menos acidentado que o 3º, por exemplo; e para não desviar do rumo basta cuidar os contornos dos troncos caídos.

Nota-se a inteligência com que o caminho todo foi construído. Em vários locais não é apenas uma trilha normal ao nível do solo, como deve ter sido enquanto picada indígena antes da colônia, mas sim um percurso ora elevado, ora rebaixado aproximadamente em 1m com relação à parte mais alta do barranco. Também se vê onde a terra foi mexida para o escoamento de água da chuva; um contraste interessante de uma coisa que é ao mesmo tempo “artesanal”, porém muito eficiente. Só em um lugar a estrutura de um caminho antigo me impressionou mais, que foi a descida do Canion da Pedra, entre Cambará Do Sul (RS) e Jacinto Machado (SC). O trecho termina no penúltimo recanto, o Curva Da Ferradura.

A calçada de paralelepípedos desse recanto, que desce para direita atrás do quiosque, termina numa trilha que leva até uma cascatinha, a qual fica no mesmo riacho onde se capta água para o Bela Vista, lá em cima.


Cachoeiras Impermanentes Do Morro Mãe Catira


Aqui mais um parêntese, esta vez para um espetáculo da natureza que são as enormes quedas d'água formadas em dia de chuva, desde o platô entre o Morro Do Sete e o Mãe Catira. Em dias normais são apenas dois filetes invisíveis à distância, que formam um riachinho perto da Casa De Pedra, mas basta uma precipitação forte para que se transformem nas torrentes que nem todos têm a sorte de ver. Isso porque parte das vezes, a mesma tormenta que as gera, também as encobre. Na base, a água atinge uma fenda que é maior que a do riacho no recanto Ferradura, mais adiante do qual ambos se unem para seguir em paralelo ao último calçamento do caminho, à certa distância dele. Este é o recanto de onde melhor se vê o fenômeno, embora seja observável até das proximidades de São João da Graciosa.


O Sexto Trecho

Mais uma vez são 2 os acessos; o calçamento mesmo inicia entre a saída do recanto e a estrada, mas muitos usam a trilha que sai detrás do banheiro. Logo encontram-se, e desde ali é o trecho menos inclinado. Aproximando-se do seu final ouve-se os barulhos, principalmente latidos dos cachorros, pois lá junto ao recanto Mãe Catira existe uma casa. Ocorre que estão sempre presos e não há risco de virem até a trilha.

Antes de chegar no final, existem 3 entradas para a direita, separadas por pouca distância, sendo uma para captação de água no riozinho, e as outras duas com cascatinhas pequenas, que consideramos como a melhor forma de encerrar o passeio. A última é a mais bonita; um dos poços é uma piscina deliciosa. Curioso é que para o lado oposto do riacho existe um caminho (sem calçamento) bem aberto no início, onde entrei até certo ponto, e vi que começa a curvar para a direita. Depois me informaram no recanto que outrora houve ali um bananal, e que a trilha não leva hoje a lugar algum; mas persiste a curiosidade de percorrê-la até o fim.

O calçamento chega no meio do Mãe Catira, que é o maior dos 6 recantos. Até ao lado das churrasqueiras, as pedras ainda estão preservadas. Vários trilheiros concluem o dia com um banho no rio Mãe Catira em vez das cascatinhas, mas nesse caso recomendo usar a trilhazinha de frente para o último quiosque, e não a ponte de ferro, porque nela sempre há muita gente, é mais tumultuado.


Caminho Original Da Graciosa - Parte 1

Por diversos motivos, entre saber da existência dos caminhos coloniais da Serra do Mar, em 1997, e chegar a percorrer um deles pela primeira vez, dez anos tive que esperar. No êxtase de ter conhecido o Itupava, diligentemente busquei saber como chegar às outras duas trilhas mencionadas no guia Eco Verão, que foi o principal dos informativos turísticos de outrora, trazedor de tanto fascínio a respeito daquele mundo remoto que era a floresta atlântica. Sendo descrito apenas como um “trajeto distinto da rodovia”, o caminho colonial que a originou parecia ser o menos interessante dos 3, pois diante do afã em desbravar aquela parte da serra, considerava a própria estrada como objeto de saciedade quase suficiente. Vê-la da janela de um ônibus, e isso ter sido quase tão distante como vê-la por uma TV, foram o bastante para querer pôr o pé no chão novamente.

Duas referências encontrei, sendo um tracklog impreciso (que hoje concluo ter sido desenhado à mão), mas que mesmo assim veio a ser útil; e o relato de alguém que, para conhecer a rota inteira, precisou mais de uma investida, tal como me aconteceria. O caminho consiste de 6 trechos calçados que intercalam a rodovia, precedidos por outro, bastante deteriorado, que não se costuma percorrer. São aproximadamente 8 km de história, descobertas, cascatas e paisagens. Com uma experiência muito menor que hoje e sem saber os pontos exatos de início, conseguimos na primeira investida andar só pelos segmentos 2 e 5, sendo o restante pela estrada; entretanto no momento isso já nos satisfez.

A Casa De Pedra



As ruínas da centenária casa que pertenceu ao preservacionista Johannes Garbers são parada quase obrigatória para quem desce o caminho. Está localizada 700m para dentro na via chamada Graciosa Velha, ou “Trilha” do Alemão, estradinha que liga a Graciosa atual à Av. D. Pedro II; é a última entrada à direita antes do mirante. Quem chega de ônibus deve comprar passagem até a localidade Alto da Serra, para não pagar o valor inteiro até São João ou Morretes; e atualmente são dois os horários que saem de Curitiba, 07:45 e 09:00. Há que se cuidar com alguns dias do ano em que a estrada é fechada para eventos esportivos, pois embora não transcorram o dia inteiro, causam a suspensão dessas linhas.

A casa é mais visitada por estar no ponto de partida das trilhas para o Morro Mãe Catira, Sete, Polegar e travessia da Farinha Seca. Ao lado da ruína está a casa do caseiro, que cobra R$ 20,00 pelo estacionamento, mas sempre franqueou a entrada para pedestres. É recomendado chegar devagar para não provocar seus numerosos cachorros, embora nem sempre estejam presentes. A Casa de Pedra em si é um ambiente pitoresco – ao mesmo tempo sombrio mas acolhedor; com suas frequentes neblinas, e o mato em volta, ora alto, ora bem roçado. Sob sua lareira se vê um fundo buraco onde alguma mente rasa veio um dia cavar e depredar para buscar ouro. Entre as duas partes do terreno corre o Rio Do Corvo, cuja cachoeira conhecida (mencionada como "Do Riva") está apenas 400m à montante; e nela uma corda permite subir ao topo; mas o que existe adiante dela já é outra história. Para baixo, este mesmo rio é cruzado pela estradinha, e paralelo a ele inicia uma certa trilha, também interessante.


O Labirinto Entre A Casa De Pedra E O Recanto Engenheiro Lacerda

Vindo de algum lugar na direção de Quatro Barras, está pouco visível o calçamento de pedras construído há mais de 180 anos, que tinha naquele terreno apenas um local de passagem. A casa simplesmente o interrompe, dando indício de ter sido edificada posteriormente, e não há 200 anos como alguns creem. Para o outro lado não se o distingue, e o que existe é um carreiro na relva baixa até alguns metros, onde se adentra a densa floresta – desde então tudo torna-se um complicado labirinto.

Há trilhas para todos os lados, partes muito fechadas, travessias de pequenos charcos, mas também pontos onde se tem a certeza de estar pisando sobre o calçamento original, pela forma aplainada e firme, e pela gramínea típica que recobre aquelas pedras quando não são percorridas. O visitante sente-se como um arqueólogo. Crendo na descrição errada que nos baseou, pensávamos que o correto seria sair na captação de água do mirante (Engenheiro Lacerda), e que o 1º trecho íntegro do calçamento era o que corta a curva seguinte. Mas não; esse pedaço deteriorado do caminho deve apenas levar o visitante de volta para a estrada, se não estiver fechado demais; a fim de que em seguida adentre o verdadeiro 1º trecho bom, no lado oposto da rodovia. Um mapa ao final da página esclarecerá o que verbalmente soa tão complicado

O Primeiro Trecho Íntegro


Este segmento que conhecemos tardiamente (e de trás para frente) tem sua entrada à esquerda, aproximadamente 87 metros antes da placa que demarca a divisa de município, entre Quatro Barras E Morretes. Sem acostamento, às vezes entre cipós e mato mais alto, somente o começo é ruim, porque logo se alarga, antes de cruzar um riachinho. Segue mais ou menos paralelo a ele, até sair adiante do 1º recanto; perfazendo 371m.

Local aproximado da entrada e local exato da saída; respectivamente

O Segundo Trecho


Vista do mirante para a serra do Ibitiraquire

235m à frente do mirante, e apenas 30m à frente da saída do segmento anterior, fica a continuidade da trilha, sendo essa parte a mais curta e inequívoca das 6. Ali, como na última, também há um buraco feito à procura de ouro. Por algum motivo, do começo ao fim da Graciosa, as teias são até um pouco mais constantes que em outros caminhos. Não são de espécies perigosas, e na maioria das vezes as aranhas nem estão presentes, mas se quem anda na frente não se cuida, pode até tecer uma blusa com tantos fios que acumula.

Em pouco tempo encontra-se novamente a estrada, 280m antes do recanto Rio Cascata. Esse nome se deve à quedinha ali existente, no mesmo riacho que abastece o recanto anterior. Sendo normalmente modesta, impressiona um pouco em dias de cabeça d'água. Para ir do fim do 1º trecho calçado à entrada do 2º, basta atravessar a estrada e dar uns passos à esquerda; sendo ela menos ou mais visível conforme a época.


Entrada do segundo trecho



3 primeiros trechos

 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Guia Eco Verão


Não é de hoje que o litoral paranaense, por ter a sua população multiplicada durante cada veraneio, recebe do governo os recursos e as atenções correspondentes, na forma de operações sazonais voltadas ao turismo, do qual toda a sua economia depende. Num recente passado, em tempos de orelhões cor de laranja e dólar a R$1,16; a então operação Eco Verão (que atualmente perdeu o "Eco") trazia consigo além de policiais e bombeiros, um guia informativo gratuito mais completo e de mais alta qualidade gráfica que os distribuídos nas últimas temporadas. Um compêndio descritivo de várias atrações dos 7 municípios denotava os melhores esforços de quem o elaborara, a fim de que o veranista dispusesse de todos os conhecimentos para desfrutar e gastar nas nossas praias.

Outrora facilmente acessível, a edição de 1998 hoje é quase rara, encontrada somente em alguns sebos - de um dos quais agora trago em duas formas.

Baixar pelo link:

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A qualidade das imagens não é 100%, mas todo o conteúdo está presente. Nessas 117 páginas, uma versão bem ampliada da de 1997, há algo de muito nostálgico especialmente para quem conheceu e curtiu o litoral do Paraná àquela época.


As imagens que o ilustraram foram desenhadas por um artista de talento, que juntava as representações dos locais numa maneira bem parecida com a que faz nossa imaginação ou memória afetiva sobre determinada região; e todos os seus elementos, desde os ícones, pareciam estrategicamente criados para instigar nossa vontade de aproveitar cada ponto turístico.


Uma enormidade de atrativos do litoral, talvez por desconhecimento, estavam ausentes; e algumas descrições continham informações imprecisas; mas por outro lado constavam alguns que, de tão "longínquos", são ainda hoje pouco conhecidos da maioria dos turistas, como o Rio Pasmado e a Serra Gigante. As histórias dos caminhos coloniais, por exemplo, que foram tema inicial desse blog, traziam uma linguagem vagamente semelhante à do livro de Júlio Estrela Moreira, quem por sua vez tivera como fonte maior as "Memórias Cronológicas" do historiador Vieira Dos Santos, (Séc. XIX).


É perceptível que nos guias dos anos seguintes, geralmente mais simples e sucintos, o padrão dos textos é basicamente o mesmo, inclusive nas imprecisões. E talvez ainda hoje muitos litorâneos não lhe façam caso, descartando-o às vezes como folheto de propaganda. Mas quem ainda tiver outros materiais turísticos do litoral, anteriores ao ano 2000, e deseje compartilha-los, é favor entrar em contato com o e-mail gomes681@gmail.com

Passado algum tempo, também tive acesso à versão de 1997; e aqui está para download (.rar):


Não sendo muitas páginas, o arquivo tem pouco menos de 5Mb. E este é o link para leitura online (menor qualidade):


Em 1997, para um olhar curioso, um "mundo" cabia nessa imagem...